Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil - 097 PAVIMENTOS ESTRIADOS DO
GRUPO SANTA FÉ; Data: 31/07/2000
José Eloi Guimarães Campos
Marcel Auguste
Dardenne Universidade
de Brasília -Instituto de Geociências © Campos,J.E.G.; Dardenne,M.A. 2000. Pavimentos estriados do Grupo Santa Fé, neopaleozóico da Bacia Sanfranciscana. In: Schobbenhaus,C.; Campos,D.A.; Queiroz,E.T.; Winge,M.; Berbert-Born,M. (Edit.) Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil. Publicado na Internet em 31/07/2000 no endereço http://www.unb.br/ig/sigep/sitio097/sitio097.htm [Atualmente https://sigep.eco.br/sitio097/sitio097.htm]
Versão Final Impressa: Ver Poligonal da Área de Proteção proposta para o Sítio 097 (A referência bibliográfica de autoria acima é requerida para qualquer uso deste artigo em qualquer mídia, sendo proibido o uso para qualquer finalidade comercial) |
RESUMO
Os pavimentos estriados da região de Santa Fé de Minas, no noroeste
do Estado de Minas Gerais são pouco conhecidos da comunidade geológica. Contudo estas
estruturas são importantes no contexto geológico regional da Bacia Sanfranciscana,
auxiliando na identificação dos ambientes deposicionais da unidade basal
(permo-carbonífera) da cobertura Fanerozóica do Cráton do São Francisco. Trata-se de
ocorrências limitadas, mas muito bem expostas que devem ser preservadas e integrar o
patrimônio geológico do Brasil, como um sítio do tipo estratigráfico.
ABSTRACT
The striated pavements observed in the Santa
Fé de Minas region, in the northwestern of the Minas Gerais State, are not well
known by the Brazilian geologists. However these structures are important in the
regional geologic context of the Sanfranciscana Basin, and were fundamental to
the identification of the depositional environment of the basal units of the São
Francisco Craton Phanerozoic covers. The structures are limited in area, but are
very well preserved and must be integrated to the geological inheritance of
Brazil as one stratigraphic site.
INTRODUÇÃO
A glaciação Neopaleozóica apresenta registros em várias bacias
paleozóicas de todo o Gonduana como por exemplo: grupos Itararé e Aquidauana Bacia do
Paraná, Formação Dwyka Bacia do Karroo / África do Sul, Formação Queensland
Bacia de Bowen /Austrália, Bacia de Koel / Índia; além de inúmeras ocorrências
na Antártida (Crowell & Frakes, 1971 e 1972; Frakes
& Crowell, 1969 e 1970; Frakes et al. 1971 e 1975). Contudo na Bacia Sanfranciscana, este registro é restrito,
sendo limitado a situações paleogeográficas preservadas em paleovales. A
identificação e confirmação deste evento glacial no interior do Cráton Sanfranciscano
foi apenas possível devido à observação dos pavimentos estriados na região de Santa
Fé de Minas.
Os sedimentos glaciogênicos foram atribuídos ao Grupo Santa Fé
(formações Floresta e Tabuleiro), compondo a unidade basal da bacia
(Campos,1992; Campos & Dardenne,1997). Os pavimentos estriados foram inicialmente descritos por Dardenne et
al. (1990).
LOCALIZAÇÃO
Os afloramentos estão situados a 5,0 quilômetros a oeste da cidade de
Santa Fé de Minas (no noroeste de Minas Gerais, Vale do Rio Paracatu). O acesso às
exposições é feito através da estrada de terra que liga Santa Fé de Minas a
Bonfinópolis de Minas. Uma boa referência de distância é a ponte sobre o Ribeirão
Lavado distante 1.800 metros do ponto. Os afloramentos estão a cerca de 20 metros na
margem esquerda (sentido Santa Fé Bonfinópolis - Figura 1). A
região de afloramentos está localizada nas coordenadas 45o31'54"W
- 16o43'34"S.
O substrato que está estriado e polido é representado por arcóseos
da Formação Três Marias, unidade do topo do Grupo Bambuí (Neoproterozóico).
A idade da sequência glacial foi determinada com base em icnofósseis
presentes em fácies glacio-lacustres, onde as trilhas em siltitos e folhelhos foram
identificadas como isopodichnus e diplichnites. Embora os referidos traços
fosseis não possibilitem a determinação de uma idade bem definida, estes são
característicos do Paleozóico Superior e permitem a correlação da sucessão
glaciogência com o evento glacial gonduânico.
Figura 1 Localização das áreas estudadas com distribuição dos sedimentos glaciogênicos e presença dos pavimentos estriados.
DESCRIÇÃO DO SÍTIO
Trata-se de uma sequência de pequenos afloramentos, o maior deles com cerca de 40 metros quadrados de excelente qualidade (Figura 2). No local os pavimentos são representados por sulcos rasos, finos e sub-paralelos, compondo sequências de estrias que podem ser seguidas por vários metros. Localmente o pavimento se torna polido ou com sulcos muitos rasos, apresentando um aspecto liso. Além das diversas estrias, sulcos e pequenas caneluras, localmente a superfície do pavimento é ondulada, podendo conter marcas de abrasão por seixos e fraturas em crescente (figuras 3 a 5).
Figura 2. Mapa Geológico da
Área de Santa Fé de Minas - MG.
Figure 2. Geologic map of the Santa Fé de Minas region (Minas Gerais state)
Além de outros parâmetros (análise petrográfica de
arcóseos,
composição dos clastos, assembléia dos minerais pesados e estatística em estratos
cruzados) os pavimentos foram importantes para definir a direção e sentido do fluxo das
geleiras, indicando deslocamento de massa de nordeste para sudeste.
No local do sítio, os pavimentos encontram-se associados a fácies de
diamictitos e folhelhos com dropstones, ambas contendo clastos (seixos e blocos) de
natureza variável, formas facetadas e ocasionalmente também estriados. As fácies
glaciogênicas apresentam coloração caracteristicamente vermelho-tijolo e preenchem os
vales resultantes da geomorfologia glacial e pré glacial.
O Grupo Santa Fé não é restrito à região aqui considerada, tendo
sido identificado em diversas outras regiões da bacia (regiões de Urucuia, Canabrava e
São Romão, MG e Posse e São Domingos, GO), contudo os pavimentos aqui descritos são os
únicos até então cartografados.
A importância de preservação deste sítio geológico de cunho estratigráfico é devida aos seguintes fatores:
MEDIDAS DE PROTEÇÃO
Não existem medidas de proteção. Como este sítio está situado nas adjacências de uma estrada vicinal de pequena importância, o maior risco a que está submetido seria seu aterramento ou fragmentação por máquinas quando do alargamento ou pavimentação da via de acesso. Neste sentido, a principal forma de preservação seria a conscientização dos administradores locais da importância da área para as ciências geológicas.
REFERÊNCIAS
Campos,J.E.G. 1992. A Glaciação Permo-Carbonífera nas regiões de Canabrava e Santa Fé de Minas – MG. Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília. 104 p.
Campos,J.E.G.; Dardenne,M.A. 1997. Estratigrafia e sedimentação da bacia Sanfranciscana: Uma Revisão. RBG 27(3):269-282.
Crowell,J.C.; Frakes,L.A. 1971. Late Paleozoic Glaciation: Part IV, Australia. Geological Society of America Bulletin, 82:2515-2540.
Crowell,J.C.; Frakes,L.A. 1975. The Late Paleozoic Glaciation. In; Gonduana Geology, Campbell, K.S.W. (edit) Part IV, Karroo Basin. Geological Society of America Bulletin, 83:1887-1912.
Dardenne,M.A.; Gonzaga,G.M.; Campos,J.E.G. 1990. Descoberta de pavimentos estriados de origem glacial sobre os arcóseos da Formação Três Marias na região de Santa Fé de Minas. REM-Revista da Escola de Minas,43(4):65-66.
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